Falar “traveco” é ofensivo?

Publicado originalmente por Nomes Científicos– Siga-os no Facebook em https://www.facebook.com/NomesCientificos/


O correto é travesti? Já explicamos aqui por que ‘travestir’, usado no sentido de ‘disfarçar, enganar’, não é um verbo preconceituoso para com as travestis, pois não se refere a elas e sequer foi delas originado. Pelo contrário, é o termo ‘travesti’ que tem origem do italiano ‘travestire’ (disfarçar).

Agora, há outro termo (esse sim ligado à travestilidade) que vem sendo alvo de discussão e seu desuso tem sido solicitado. Achei que valia a pena analisarmos a questão.

Algumas páginas das redes sociais têm compartilhado postagens afirmando que o vocábulo ‘traveco’ seria depreciativo, constituído pelo sufixo ‘-eco’ que daria uma ideia de inferioridade.

Eita! Seria mesmo ‘traveco’ uma palavra a ser evitada?

Vamos dar uma olhadeca na resposta.

Sim, sim, sufixos podem conferir significado depreciativo a um termo. É o poder da transformação morfológica da língua.

Barbicha é uma barba rala; lobacho é um lobo pequeno; negociata é um negócio suspeito; um grupo insignificante é um grupelho; o namoro que não dura muito é namorico; o metido a intelectual é intelectualoide, o bobo mais bobinho é um boboca.

Em alguns casos, só o contexto nos dá uma ajuda no sentido do uso da palavra. Por exemplo, o sufixo -inho, o mais conhecido dos diminutivos, pode conferir afetividade (“que mocinha linda!”) ou inferioridade (“escute aqui, mocinha!”).

Pode diminuir na magnitude (“passou uma nuvenzinha”) ou, acredite, até aumentá-lo (“estava um céu azulzinho”). Um ‘cursinho’ pode ser um curso pré-vestibular ou um curso sem-vergonha – tudo depende do contexto.

Que sentido esperar, então, do sufixo que encontramos em ‘traveco’, palavra formada por trav- (derivado por redução de ‘travesti’) e -eco?

Várias palavras contam com as terminações -eca e -eco. Não há nada errado em soneca (um sono pequeno), mas lojeca é uma loja que vende produtos de baixa qualidade e revisteca é uma revista sem valor. Amoreco é um jeito gracioso que muitos brasileiros se referem à pessoa amada, mas baileco é um baile de má categoria e clubeco é um clube insignificante.

A depreciação se segue em timeco, andareco, filmeco, teatreco, livreco, romanceco, bondeco, jornaleco, etc. Curiosamente, os dicionários registram até o vocábulo ‘fordeco’ (de Ford) usado para se referir a um automóvel em mau estado.

Nesses exemplos, vimos que, na maioria dos casos, o sufixo -eca/-eco imprimiu uma qualidade negativa ao termo.

O intuito é desdenhar por meio de um sufixo usado como desqualificador. Por isso, ‘traveco’ é um termo morfologicamente desagradável, originado como uma forma sutil de explicitar um preconceito, com o único intuito de aviltar travestis.

Vale lembrar, que se entende por travesti quem foi designado homem ao nascer, mas que se identifica com o gênero feminino e com a identidade de travesti.

Infelizmente, muita gente ainda usa ‘traveco’ como sinônimo de ‘travesti’ – algo que precisa ser revisto, dado o peso negativo que o sufixo carrega. Não é questão etimológica, é de uso corrente do sufixo, como já expus.

As travestis, que já sofrem demais em vários outros sentidos que fogem às palavras, não merecem ter de aturar mais uma rudeza, agora semântica.

O filósofo chinês Confúcio, no século VI a.C., já dizia que “o princípio da sabedoria é chamar as coisas por seus próprios nomes”. Vale uma esticadinha no provérbio: “o princípio da dignidade é ser chamado pelo nome certo”.

O correto é travesti.


Referência: ‘BBB 22: Por que o termo ‘traveco’ é pejorativo e não deve ser usado?’, da redação de ‘Splash/UOL’ (jan. 2022).
Foto: Sofia Favero Ricardo (2015).
Sugestão: Elen Furtado.
Originalmente publicado por Nomes Científicos
, por Rafael Rigolon

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