Por que tem a COR NEGRA e a COR PRETA na língua portuguesa?


A língua portuguesa, ao contrário de todas as demais línguas românicas, é a única que tem duas definições para a cor negra, a negra e a preta.

Se dermos uma rápida olhada nos dicionários, veremos que as duas palavras são sinônimas: preto e negro têm o mesmo significado linguístico. Todavia, seu uso cultural, suas etimologias e influências históricas as separam um pouco.


A palavra “negro” é muito parecida em países de origem latina: negro (em espanhol), nero (em italiano), noir (em Francês), negre (em catalão) etc.  Isso ocorre porque ela vem do latim vulgar, niger, nigra, nigrum, que se refere à cor mais escura que não reflete nenhuma luz, e foi vastamente usada nas regiões europeias nos últimos milênios.

No século XIII, “negro” já era muito visto no idioma português como um adjetivo, já seu uso como substantivo começou a ser visto somente no século XIX.





Mas o idioma inglês não vem do latim e a palavra “negro” é “niger”.  Como se explica isso?

De acordo com o etimólogo Douglas Harper, “niger” começou a ser muita usada no século XVI pelos nativos de língua inglesa na Europa na Idade Moderna, principalmente devido às mercantilizações e interações culturais com os países de língua latina. Mas há uma grande possibilidade de que ela tenha vindo da palavra indo-europeia “newk”, que pode até ser a raiz do nigrum latino (mas não há provas disso). Da palavra “newk”, temos por exemplo “night”, “nocturnal” e  “equinox”.


Já a palavra “preto” talvez tenha sua origem em  “apretar”.  No latim, appectorare  significa apertar contra o peito, segurar, agarrar com força.  Seu uso na língua portuguesa como “apretar” se tornou mais comum a partir do século XIII, seguindo os demais idiomas europeus. Por exemplo, em espanhol, até hoje “apretar” significa “apertar”.

Ainda não se sabe exatamente por que e quando a palavra “apretar” virou “preto” em português, e por que ela começou a definir o nome de uma cor. Mas sabemos que um idioma é algo vivo e diretamente vinculado à evolução história, então por enquanto nos cabe apenas especular sobre sua origem.

A pesquisadora Thays Karoline, da Universidade Federal Fluminense,  afirma que “com o tempo, começaram a usar a expressão apretar, e fazendo uma comparação com a palavra original, pode-se interpretá-la como algo denso, espesso, ‘apertado’.” Já a jornalista Rita Loiola põe que “com o tempo, o appectorár virou apretar. E, por uma analogia muuito criativa, deu no preto”.





Sobre o uso das palavras NEGRO e PRETO no pensamento.

Abaixo um trecho da pesquisa da linguista Patrícia Helena de Freitas, da UNIOESTE, que coloca uma relação  entre o uso das palavras Negro e Preto.

Seu artigo completo, chamado Resgate teórico sobre o vocábulo “preto” em língua portuguesa em suas diferentes conotações lingüísticas, +pode ser acessado aqui (PDF).

“É possível perceber, com base nas definições dos termos oriundos do dicionário Latino e Etimológico, que as palavras “preto” e “negro” possuem uma carga semântica negativa.  (…)Acredita-se que as palavras “preto” e “negro”, possuem uma condição marcadamente negativa (mas que não necessariamente precisa ser sempre negativa). Intuitivamente percebe-se que o usuário da língua portuguesa possui esse tipo de informação armazenada como parte de seu léxico mental, i.e., há uma relação que aproxima o conceito de “preto” a um “sentido negativo” que parece estar inerente na mente do falante, independente de como esse conceito ou essa noção foi construída”.

Fortalecendo a ideia, novamente, de que a língua é um ente vivo, estas palavras trazem um peso histórico não só em relação à era escravagista, mas também a simbolismos consagrados como o luto, a cor da noite, as fantasias criadas diante da escuridão e etc.


Preto e Negro para estrangeiro entender

Não existe uma regra absoluta de quando se deve usar preto e quando se deve usar negro na língua portuguesa.   Há um buraco-negro (black hole) ou Sua tela está preta (your screen is black).

Quando se qualifica a cor de alguma coisa, geralmente se diz a palavra “preto” , mas não é uma regra.

  • O chão está preto;
  • Comprei um lápis preto;
  • Adoro filmes em preto e branco.

Já a palavra “negro” também serve como adjetivo e é muito encontrado em palavras compostas e locuções.

  • Isso é magia negra;
  • Ela é a ovelha negra da família;
  • A fumaça negra polui o céu.

Como o aprendizado de qualquer idioma, cabe ao aluno acostumar-se com o uso de tanto usá-lo.


O uso de “preto’ na sociedade (principamente no Brasil)

Na língua portuguesa, não se qualifica formalmente uma pessoa como “preta”. Uma pessoa de pele escura, respeitosamente é definida como afrodescendente.

Claro que há lindas poesias e músicas , como +Preta Pretinha, dos Novos Baianos, também há um Caetano Veloso  que  +comenta sua música falando sobre uma garota preta que viu, e milhares de exemplos literários.

Todavia, no Brasil, para se falar que uma pessoa é “preta”, faz necessário uma proximidade cultural, uma intimidade e um “estar despido de preconceitos” que raramente se encontra no mundo formal da linguagem.

O uso de “preto” para definir uma pessoa traz um peso histórico muito forte, pois cabe lembrar que o Brasil foi o último país do mundo a proibir o sistema escravagista, o qual era completamente vinculado à exploração dos países africanos.

E chamar uma pessoa de negra? A palavra “negra” para se definir uma pessoa ainda é usada em muitos cadastros antigos. Ela não é tão desfavorável quanto a chamar alguém de “preto”, mas também carrega um peso histórico muito forte de discriminações no país.  Para definir uma pessoa, usa-se a palavra “afrodescendente”.  Esta sim, carrega em si um respeito cultural muito importante.

E posso falar que a pele é negra?
Logicamente que sim, já que a cor de pele pode ser caracterizada com um adjetivo. Diz-se que a pele é negra, que a pele é branca, vermelha ou morena (que é a pele no tom marrom).


E você?  O que pensa a respeito do uso das palavras “preto” e “negro” na língua portuguesa?  Participe. Coloque o seu comentário abaixo.

Bons estudos

 Francisco Thomé Arquer (Kiko Arquer) é professor de língua portuguesa e jornalista.




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