Por que em português os dias da semana tem feira?

por Nomes Científicos + Siga-os

Por que os nomes dos dias da semana são diferentes em português?



“É dia de feira/ quarta-feira, quinta-feira, não importa a feira!”

Quem aprendeu outras línguas já deve ter percebido que as descendentes do latim seguem um padrão de nomenclatura dos dias da semana baseado nos principais astros celestes. Nós, no entanto, usamos uma tal de ‘feira’. O que aconteceu?

Tudo começou a um tempo atrás ̶n̶a̶ ̶i̶l̶h̶a̶ ̶d̶o̶ ̶s̶o̶l̶ na Mesopotâmia, no segundo milênio a.C., quando já se sabia que um ciclo lunar (lunação) durava uns 28 dias (são 29,5 dias) e que cada fase da lua tinha mais ou menos 7 dias.

Os dias recebiam nomes de números ordinais (dia primeiro, dia segundo…).

Lá pelo século VI a.C., os hebreus instituíram que o sétimo dia seria o sabá, em hebraico ‘shabat’ (descanso), simbolizando o último dia do Gênesis.

Se até Deus descansou depois de 6 dias de trabalho, os mortais também mereciam um fôlego.

‘Shabat’ passou a ‘sábbaton’ no grego antigo, ‘sabbatum’ no latim e, por fim, sábado em português.

Sete dias da semana, sete astros errantes no céu… Uia! 🤯 A antiga Astronomia Grega tratou logo de fazer essa correlação e dedicou cada dia a cada um dos sete grandes corpos celestes então conhecidos e estes tinham relação com os sete grandes deuses do panteão mitológico.

Roma incorporou o sistema grego, mas adaptou aos seus respectivos deuses, ficando assim:

◾ Gr. ‘heméra Helíou’ (dia de Hélio) → lat. ‘dies Solis’ (dia de Sol);

◾ Gr. ‘heméra Selénes’ (dia de Selena) → lat. ‘dies Lunae (dia da Lua);

◾ Gr. ‘heméra Áreos’ (dia de Ares) → lat. ‘dies Martis’ (dia de Marte);

◾ Gr. ‘heméra Hermoû’ (dia de Hermes) → lat. ‘dies Mercurii’ (dia de Mercúrio);

◾ Gr. ‘heméra Diós’ (dia de Zeus) → lat. ‘dies Iovis’ (dia de Júpiter);

◾ Gr. ‘heméra Aphrodítes’ (dia de Afrodite) → lat. ‘dies Veneris’ (dia de Vênus);

◾ Gr. ‘heméra Krónou’ (dia de Cronos) → lat. ‘dies Saturni’ (dia de Saturno).

No ano de 380 d.C., o imperador romano Teodósio I decretou que o cristianismo seria a única religião oficial do Império Romano. Assim, em 383, o primeiro e o último dia da semana, ‘dies Solis’ e ‘dies Saturni’, tiveram seus nomes oficiais alterados para ‘dies dominicus’ (dia do Senhor) e ‘dies Sabbati’ (dia de sábado).

‘Dominicus’ gerou o nosso domingo. Se não fosse isso, à tarde na tevê, teríamos o ‘Solão com Huck’. [Em francês, é ‘dimanche’ e não ‘dilmanche’ como está na imagem. Perdoe-me pelo lapso.]

Por toda a extensão do Império Romano, os nomes planetários foram adotados. Essa nomenclatura foi tão influente que até os povos anglo-saxões e nórdicos fizeram algo parecido, mas com os nomes das deidades germânicas.

Sunna, Mona, Tiw, Woden, Thor e Freya deram nome aos dias em inglês: ‘Sunday, Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday, Friday’. Para o sábado, manteve-se a referência ao deus Saturno, da mitologia romana, ficando então ‘Saturday’.

Os países cuja língua descende do latim continuaram com esses nomes vindos dos astros apenas com modificações próprias. Na língua galego-portuguesa, nossa ancestral, os nomes eram: ‘domingo, lũes, martes, mercores, joves, vernes, sabado’.

Certamente, nossos dias da semana seriam algo parecido com isso se não fosse São Martinho de Dume, um bispo da cidade portuguesa de Braga, do século VI. Ele não gostava da ideia de os dias semanais homenagearem divindades pagãs e, por isso, sugeriu que se usassem os dias da semana de Páscoa.

Em latim, ‘feria’ significa ‘dia de festa’. É daí que temos em português feriado e férias. Na Semana Santa, que antecede a Páscoa, os nomes dos dias em latim são ‘feria secunda, feria tertia, feria quarta, feria quinta, feria sexta’. O latim vulgar transformou a palavra em ‘feira’. Nesses dias, o mercado funcionava ao ar livre, tipo uma feira (feira! Tcharã!).

São Martinho de Dume só adaptou os nomes para o galego-português e desde então mantivemos essas palavras compostas como nomes dos dias da semana. Sendo uma decisão regional, só Portugal manteve essa alteração, trazendo-a consigo ao Brasil e às suas demais colônias.

Se não fosse pela Igreja Católica de Portugal, no final de semana diríamos “vernou!” em vez de “sextou”.

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Referência interna: ‘Por que os dias da semana têm feira no nome?’, de Marina Motomura (2011) e ‘Origem dos dias da semana’, de Humberto O. Souza (2016).
Sugestão: Armando Vieira.


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