jun 13 2017

Roteiro indica o que ler de Carlos Drummond de Andrade





fonte: .Folha On-Line em folha.uol.com.br

Consagrado como um dos maiores poetas do Brasil e um dos grandes do mundo em sua época, Carlos Drummond de Andrade e sua obra são explicadas em “Drummond”, livro da coleção “Folha Explica”. O primeiro capítulo do livro pode ser lido a seguir.

O livro sobre o escritor, que tem o núcleo de sua obra em dez livros, apresenta um roteiro de leitura tanto para quem nunca leu nenhuma obra de Drummond quanto para quem já as conhece e pretende repassar sinteticamente a obra do poeta, iluminada por comentários pontuais e interpretações de contexto.

O volume da série “Folha Explica” é assinada por Francisco Achcar, professor de língua e literatura latina da Unicamp.

Como o nome indica, a série “Folha Explica” ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.


De 1930, ano de sua estréia em volume, até 1962, quando completou 60 anos, Carlos Drummond de Andrade (1902-87) publicou dez livros de poesia que contêm um dos conjuntos de textos mais prestigiados e importantes de toda a nossa tradição literária. Esses poemas fizeram que a opinião predominante no Brasil consagrasse seu autor como o maior poeta do país e um dos grandes do mundo em sua época. Mesmo os que preferem atribuir a primazia brasileira a João Cabral de Melo Neto consideram que caberia a Drummond, não fosse o isolamento imposto pela língua portuguesa, uma posição de destaque no panorama internacional.

Sua obra, elaborada ao longo de mais de seis décadas, compreende poesia e prosa. Apesar das qualidades e da quantidade da prosa (17 livros de crônicas e contos, fora o que ficou nos jornais), o núcleo de sua produção é a poesia – mais de 20 livros cuja porção capital é o conjunto de poemas acima referido, ou seja, os melhores poemas das dez primeiras coletâneas.






É matéria de discussão quais sejam, exatamente, os melhores poemas (ou mesmo apenas os bons poemas) daquela extraordinária série de livros. Drummond é irregular e há divergências quanto ao que seriam seus altos e baixos.1 Por exemplo: boa parte dos críticos incluiria em sua antologia drummondiana dois poemas narrativos, “O Padre, a Moça” e “Os Dois Vigários”, que Haroldo de Campos descarta como “poemas padrescos”.2 A “mineiridade” (o que quer que seja), valorizada por muitos, para alguns é parte da quota de “prendas” provincianas de que o poeta não se teria livrado. Os sonetos dos anos 50 são vistos por uns (José Guilherme Merquior, por exemplo) como uma das culminâncias da obra do poeta; outros (Haroldo de Campos, notadamente) os tomam como retrocesso “neoclássico” e melancólico tributo ao gosto “restaurador” em voga na época. Há quem inclua entre os melhores poemas de Drummond numerosas composições das mais de dez coletâneas de versos que ele publicou depois de 1962; outros, embora admitindo aqui e ali alguns momentos notáveis, consideram esses livros secundários, bem abaixo do nível da produção anterior. Apesar das divergências, porém, há um número significativo de poemas (todos dos dez livros iniciais) que constaria de todas as antologias, qualquer que fosse a tendência do compilador.

Aqui, propomos um passeio pela poesia de Drummond, privilegiando alguns livros capitais entre aqueles dez. O percurso deverá ser necessariamente rápido, mas não deixaremos de nos deter em alguns poemas. Tratando-se de textos geralmente sobrecarregados de significação, explicá-los será, conforme o significado original do verbo, “desdobrá-los” – desfazer algumas das “dobras” onde se alojam seus sentidos.

MODERNISMO

Quando Drummond começou a publicar poemas, na década de 20, o Brasil estava passando ainda pela fase inicial do abalo modernista, apesar de datarem dos anos de 1890 as tentativas dos simbolistas de atualizar a sensibilidade nacional. Gestos de renovação artística e literária já eram perceptíveis no fim dos anos 10 (despontavam Anita Malfatti, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Mário de Andrade), mas eram gestos isolados, que só ganhariam momentum na Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922. A partir daí, o movimento se alastrou por grande parte do país, como testemunham as revistas que se publicaram e os grupos que se formaram um pouco por toda a parte. A esses “anos heróicos”, de implantação polêmica de novas atitudes culturais, sucedeu um período de consolidação e diversificação, em meio a agitado contexto social.

A crise econômica, que se estendeu por toda a década, a partir de 1929 afetou duramente o café, e com ele a oligarquia dominante, logo golpeada pela Revolução de 1930. A imposição ditatorial que inaugura o Estado Novo em 1937, os anos de repressão, a guerra iniciada em 1939, as esperanças conseqüentes ao fim da guerra e da ditadura Vargas em 1945 –esperanças que logo cederiam lugar à ansiedade dos anos da Guerra Fria e da ameaça nuclear–, estes são alguns dos acontecimentos que balizaram uma época em que a literatura brasileira conheceu desenvolvimento e aprofundamento extraordinários.

O ano de 1930 foi memorável também para a poesia (embora a “revolução”, no âmbito da literatura, tivesse eclodido oito anos antes). Nesse ano, além da estréia de Drummond, houve outras novidades: Mário de Andrade publicou Remate de Males, início de um período em que sua escrita se afasta de exterioridades e trejeitos do período anterior, e ganha em concentração e intensidade; Manuel Bandeira lançou Libertinagem, seu quarto livro, mas o primeiro de fato moderno, com alguns dos melhores poemas de toda a sua obra; Murilo Mendes e Vinícius de Moraes também estrearam em livro. Com Murilo e Jorge de Lima, iniciar-se-ia depois o influxo surrealista na poesia brasileira. Mas o modernismo, ao mesmo tempo que se afirmava diante da literatura acadêmica combalida, conhecia também tendências mais convencionais, de tons neo-românticos ou pós-simbolistas (primeira fase de Vinícius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt, Cecília Meireles).






Nessa segunda etapa do movimento modernista –que vai, grosso modo, de 1930 a 1945–, desenvolvem-se na poesia algumas das características mais marcantes de seu primeiro tempo (inovações rítmicas, humor, paródia, temas cotidianos, linguagem coloquial, elipses e associações surpreendentes), ao mesmo tempo que se amplia a temática e se diversificam os recursos e as tendências estilísticas. Esboça-se então o perfil contemporâneo da literatura brasileira, que, como a literatura internacional, testemunha a emergência de três sistemas explicativos do homem e da sociedade: o existencialismo, a psicanálise e o marxismo. Independentemente de adesão por parte dos escritores, esses sistemas fornecem diversas das grandes imagens que integram o horizonte mítico da época. Contra tal fundo imaginário, novo em muitos de seus aspectos, desenha-se a figura de uma consciência fenomenológica, ou autoconsciência artística que, no caso da poesia, fará da linguagem e do trabalho do poeta temas privilegiados da obra poética.

Esquematicamente, o segundo momento modernista se distingue, sobretudo, por:

o generalização e aprofundamento da mistura de estilos (estilo misto ou mesclado), em que se combinam o elevado e o banal, o grave e o grotesco: temas sérios e problemáticos são tratados com linguagem vulgar e o tom sublime é aplicado a assuntos “baixos” ou banais;

o renovação da temática existencial, ou seja, busca de novos registros para temas como o tempo, o amor e a morte (lembre-se que, em seus inícios, o modernismo brasileiro tem preferência por assuntos nacionais, cotidianos e atuais, e não pelos “grandes temas”, associados à poesia do passado);

o elaboração de imagens surpreendentes ou oníricas, em associações inesperadas, revelando influência do surrealismo e da então recente voga da teoria freudiana (importante na obra de Murilo Mendes e Jorge de Lima, a influência surrealista, embora restrita, é notável em momentos isolados da poesia de Drummond);

o envolvimento do escritor nas questões sociais, em textos marcados por revolta e esperança socialista. (durante a guerra e sob a ditadura Vargas, a temática social conheceu, compreensivelmente, seu momento de mais alta incidência);

a reflexão da poesia sobre a própria poesia, ou seja, autoconsciência do poeta em relação a seu trabalho com as palavras. Curioso notar que, se a temática metalingüística interessou intensamente ao experimentalismo poético (que Drummond praticou não só nos anos “heróicos” do modernismo, mas também, ocasionalmente, na época de ebulição do vanguardismo – a poesia concreta – dos anos 50-60), os temas da linguagem e da própria poesia não deixam de estar presentes no neoclassicismo do Drummond dos anos 50, com incidências ocasionais em todo o seu desenvolvimento posterior.

Ao longo de todo o arco de tempo que vai de Alguma Poesia a Lição de Coisas (1930 a 1962), esse quadro de caracteres foi-se constituindo, desenvolvendo, alargando e aprofundando, de livro em livro. Com A Rosa do Povo (1945), a poesia drummondiana atingiu um dos pontos culminantes da estética modernista no Brasil. A partir de então, numa série de obras que inclui Claro Enigma (1951), Drummond realizou uma das mais bem-sucedidas tentativas de associar o modernismo a formas poéticas e lingüísticas da tradição (metros regulares, soneto, fraseado de gosto clássico). Em seu último período, o dado novo que se acrescentou ao repertório drummondiano foi a poesia erótica, surpreendentemente franca em seu espantoso amoralismo.






TEMÁTICA

No annus mirabilis de 1962, em que completou 60 anos de idade e publicou Lição de Coisas, Drummond lançou também a Antologia Poética, na qual distribuiu os poemas em nove seções, designadas segundo o “ponto de partida” ou a “matéria de poesia” predominante em cada uma delas. Os nove núcleos temáticos discernidos pelo poeta são (entre aspas os títulos das seções, que valem por súmulas do sentido de cada tema): 1. o indivíduo: “um eu todo retorcido”; 2. a terra natal: “uma província: esta”; 3. a família: “a família que me dei”; 4. amigos: “cantar de amigos”; 5. o choque social: “na praça de convites”; 6. o conhecimento amoroso: “amar-amaro”; 7. a própria poesia: “poesia contemplada”; 8. exercícios lúdicos: “uma, duas argolinhas”; 9. uma visão, ou tentativa de, da existência: “tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”.

Diversos poemas (observa o poeta) podem caber em mais de uma dessas seções; por outro lado (acrescento), serão poucos os poemas, no conjunto da obra, que não se encaixem em nenhuma dessas rubricas.

1 Há, naturalmente, os que só vêem altos na “Obra” (com a maiúscula ao gosto de um desses fervorosos drummondianos, e bom estudioso de Drummond, Antônio Houaiss).
2 Haroldo de Campos, “Drummond, mestre de coisas”; em: Metalinguagem & Outras Metas (São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 49-55). Desse ensaio procedem todas as citações de Haroldo de Campos que faremos adiante.

“Carlos Drummond de Andrade”
Autor: Francisco Achcar
Editora: Publifolha
Páginas: 128
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha





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