De onde vem a palavra “vermelho” em português? Por que ela é diferente?

Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão


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Desespero do decorador é quando o cliente lhe diz que queria a parede com um tipo ‘diferente’ de vermelho. Não é o vermelho vermelho, mas um vermelho meio puxado para o salmão, só que com ares de vermelho-cereja. Eita! Seria um vermelho-turco ou um vermelho-coral?

Como se não bastasse a infinidade de variedades de cores, há uma gama de nomes diferentes para a cor vermelha. Uma parede vermelha pode ser uma parede acerejada, afogueada, abrasada, atomatada, rubra, corada, cetrina, encarnada, carmim, rubente, punícea, piranga, cetrina… Vixe!

Há um zilhão de nomes para o vermelho. Bem, mas quando falamos do nome básico mais usado da cor vermelha, notamos que, na maioria das línguas europeias, os nomes são meio parecidos, começam com R. Já notou?

Trago exemplos. No ramo germânico, há ‘Rot’ em alemão, ‘rood’ em holandês, ‘red’ em inglês, ‘rød’ em dinamarquês e ‘rauður’ em islandês. No ramo itálico, começou com o protoitálico ‘roussos’ vinda a dar em ‘russus’, no latim. Do latim, derivaram ‘ros’ em catalão, ‘rojo’ em espanhol, ‘roxo’ em galego, ‘rosso’ em italiano e ‘roșu’ em romeno.

Em francês, ‘russus’ se tornou ‘roux’, que significa ‘ruivo, de cabelo vermelho’. O vermelho em francês, ‘rouge’, veio do latim ‘rubeus’ (avermelhado), palavra esta que ficou como ‘ruivo’ em português.



A partir do latim ‘ruber’ (vermelho), tivemos os vocábulos ‘rubro’, ‘enrubescer’, ‘rubi’, ‘rubor’ e ‘rubrica’ (originalmente, era uma argila vermelha usada para escrever em destaque os títulos da lei).

Os latinos ‘russus’, ‘rubeus’ e ‘ruber’ e aquelas citadas palavras germânicas vieram todas do mesmo ancestral. Os linguistas afirmam que, há 5 mil anos, havia uma protolíngua que originou o ramo germânico o itálico e outros mais. Na língua protoindo-europeia, ‘h₁rewdʰ-’ significa ‘vermelho, cor de sangue’. É por isso que um tantão de palavras ligadas à cor começam com R.

Certo, certo… Mas por que em português nós usamos a palavra ‘vermelho’. Sabendo que a língua portuguesa também é filha do latim, por que o nosso vermelho não começa com R? Bem, até começava – se chamava ‘roxo’. Oi?

Olha só! Numa edição de 1838 da revista portuguesa ‘O panorama’, assim estava escrito num artigo sobre o Egito: “Egypto. Este paiz situado na extremidade da Africa é dividido da Asia pelo mar roxo”. Mar Roxo, gente! É o que conhecemos por mar Vermelho.

‘Vermelho’ vem do latim vulgar ‘vermiclus’, que por sua vez vem do latim clássico ‘vermiculus’, diminutivo de ‘vermis’. Na Antiguidade, ‘vermis’ era um termo que servia para qualquer bichinho, os vermes (tal como conhecemos) e os insetos. Desses, chamavam ‘vermiculus’ o inseto hemíptero ‹Kermes vermilio›, do qual era extraído o pigmento ‘carminium’, palavra ligada ao corante ‘carmim’.

O ‘vermiculus’ virou nome de cor e assim se difundiu noutras línguas. Há ‘vermilion’ em inglês, ‘vermeil’ em francês, ‘bermejo’ em espanhol, ‘vermiglio’ em italiano e ‘vermello’ em galego.

Nessas línguas, os derivados de ‘vermiculus’ são bem pouco conhecidos, sobressaindo-se aqueles nomes com R inicial. Acontece que, em português, o termo ‘roxo’, com o tempo, foi designando a cor mais puxada para o violeta, muito pela coloração do vinho, que é um vermelho violáceo. Ao final, ficaram com ‘vermelho’ para a cor de sangue e ‘roxo’ só para o a cor púrpura.

Curiosamente, naquela mesma publicação de ‘O panorama’ que eu mencionei, outro artigo trazia a descrição das vestimentas de um tal Antonio Alcoforado: “tinha um gibão de fustão prateado, com meias mangas, e colar e pontas de velludo roxo, e umas calças vermelhas”. Isso mostra como, para parte da população, já havia boa diferença entre vermelho e roxo.

Já pensou, o sujeito pedia para pintar sua parede de roxo pensando que era vermelho-paixão, e o pintor mandava um violeta pesado? Bom, hoje em dia, os ‘designers’ de interior apelam à representação numérica das cores. No sistema RGB (‘Red-Green-Blue’), o vermelho básico é RGB(255,0,0), o vermelho-cereja é RGB(210, 4, 45) e o salmão é RBG(236, 108, 91). Não dá para errar.

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📚 Referências: ‘O panorama’, jornal da ‘Sociedade Propagadora de Conhecimentos Uteis’ (mai. 1838); e ‘Os nomes de cores nas línguas românicas’, por Maria Luisa Fernandez Miazzi, na revista ‘Língua e Literatura’ (dez. 1974).

📸 Figura: Marina Shemesh/Public Pictures Domain (out. 2023).

🗣️ Por: Adriel Abreu.


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Dolores
Dolores
6 meses atrás

em catalão se usa mais vermell que ros

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