Por que nós professores ficamos tentados a proibir o uso de celular em sala de aula?

Até que ponto o argumento de não dispersar os alunos não mascara um medo de ser superado por eles na habilidade virtual? Essa situação denuncia uma falta de metodologia que utilize desse meio em prol do ensino?

Pesquisa desmistifica uso de internet em sala de aula: desconstruindo falsas verdades …

Por  – Professor na ESPM Escola Superior de Propaganda e Marketing

É muito mais fácil aceitarmos uma mentira (que, segundo dizem, usada repetidamente pode ser entendida como uma verdade absoluta) do que a busca por soluções para os problemas. É mais cômodo aceitarmos o fato de que não podemos concorrer com a internet do que transformá-la em nossa aliada. Por que não fazer uso do velho ditado popular:

“se não se pode com o ‘inimigo’, junte-se a ele”.

Até porque para isso temos que sair da zona de conforto ou conformismo e pensar em estratégias “oportunistas” para fazermos uso desse “concorrente” a nosso favor. Analisar os frios números (que me desculpem os matemáticos) de uma pesquisa recente nos traz à luz uma discussão que estava adormecida sob um argumento de que o comodismo nos impede de confrontar de frente (perdoem a redundância!).

“Ah… os alunos têm muito mais habilidades com a internet do que nós, pois já nasceram neste mundo virtual. Fica impossível superá-los ou ao menos acompanhá-los”.

Verdade? Até admito que possa ser em parte, mas não de forma intransponível. Desde quando o professor não é um eterno reversor de quadros? Ao mesmo tempo que essa crença pode gerar acomodação, em muitos casos pode ir além, como o medo de enfrentar esse paradigma e ainda, aos mais radicais, uma total rejeição. Não é à toa que muitos de nós proíbem o uso do celular em sala, ao invés de buscarmos aplicabilidade para ele, que pode ser um dos nossos maiores aliados.





Professor tem muito mais habilidades virtuais do que demonstra

Vamos ao estudo do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Me chama atenção a tabela que aponta que 91% dos professores acessaram a internet pelo celular, porém somente 49% para atividades com alunos. Pense bem… Isso já desmonta a máxima repetida de que o professor não tem habilidade tecnológica. Porém, acena para um outro quadro, este facilmente contornado com a boa vontade do poder público e dos dirigentes das instituições de ensino: investimento em aplicabilidade para atividades acadêmicas. Fator resolvido com programas de requalificação, treinamento e incentivo da categoria.

Outro mito desconstruído: o de que os alunos utilizam mais do que os profissionais de educação. Pela primeira vez a aplicabilidade entre os estudantes foi investigada nesta pesquisa. E observem que a usabilidade ficou praticamente empatada: 52% dos alunos de escolas urbanas com turmas de 5º e do 9º anos do ensino fundamental e do 2º ano do ensino médio usaram telefones celulares em atividades educacionais no ano passado.

Porém, apenas 31% acessaram de dentro da escola pública, enquanto nas privadas o número sobe muito pouco, para 36%. Neste caso temos alguns outros fatores para analisar… Apesar das dificuldades de conexão, 92% das escolas possuem rede WiFi, mas 61% não permitem acesso aos alunos!

Por que será?

Isso mostra que, na incapacidade de se encontrar uma aplicabilidade, é mais fácil impedir, como se isso fosse possível em termos de internet. Essa postura só cria um abismo ainda maior entre as atividades acadêmicas e os hábitos de navegação. Lembra um pouco aquela velha história de tirar o sofá da sala!

O mesmo levantamento também desmistifica a ideia de que:

o professor tem medo ou é resistente:

Nada disso. Vejam os números desse estudo… Para 94% dos que usaram os laboratórios escolares, a aplicação da informática permitiu o acesso a materiais didáticos mais diversificados ou de melhor qualidade. Além disso, grande parte dos docentes concordou que a adoção de novos métodos de ensino (85%) e o cumprimento de tarefas administrativas com maior facilidade (82%) são resultado do uso das TICs.

O fenômeno é registrado em todo o mundo

Mas não pense que esse é um problema apenas nosso. Enquanto pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA) mensuraram 37 minutos diários “desperdiçados” (discordo do termo) pelos alunos em espaços que nada tinham a ver com a atividade acadêmica, o site Science Daily mostrou que piorou consideravelmente o desempenho acadêmico dos estudantes altamente conectados.

Ou seja, falta uma ressignificação do nosso papel de professor diante dessa nova conjuntura. Que representatividade ganham agora os livros adotados ou indicados, as pesquisas nas bibliotecas físicas, as apostilas nas xerox ou até as folhas mimeografadas (Sim, por incrível que pareça, elas ainda existem em alguns pontos remotos do Brasil!). Trocando em miúdos… Não somos mais os detentores do saber. Nessa reconfiguração social, nossa missão é mais incentivadora e mentora de caminhos virtuais a serem seguidos. E são muitos… São disponibilizados em média 413.000 horas de novos vídeos no Youtube diariamente, quase um milhão de artigos em português na Wikipedia. Isso sem falar em NetflixFacebookWhatsapp

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