por Francisco Arquer Thomé (Kiko)
Quando Machado de Assis construiu sua obra O Alienista, ele nos colocou dentro da pequena cidade de Itaguaí, e nela ficamos acompanhando Simão Bacamarte pensar suas teorias e seguir sua conduta científica.
Entre seus diagnósticos de razão e insânia, podemos referenciar as especulações sobre a natureza da loucura em quatro momentos: na primeira habita “a família dos deserdados do espírito”(p.13), na segunda “a loucura era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”(p.19), a terceira se aponta em seu “normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos de equilíbrio ininterrupto” (p. 45), e por fim, Simão Bacamarte chega à conclusão que “trata-se de uma teoria nova cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática” (p. 55).
Ao longo da narrativa, o sanatório se transforma no centro das atenções de todos na cidade, e ocasiona medos, iras e revoltas. Muitos relatos acontecem ao redor do prédio. Todavia, para este trabalho, decidimos voltar àquele primeiro momento, quando a Casa Verde foi inaugurada e festivamente comemorada; quando os loucos de Simão Bacamarte ainda eram “a família dos deserdados do espírito”(p.13).
Naquela etapa inicial, lemos que o protagonista recolhe alguns personagens ao sanatório, oferecendo-nos algumas características superficiais de cada. São personagens planos como o Traído, o Falcão, o Boiadeiro de Minas, etc., que não apresentam um histórico além de uma curiosa insânia.
Então, junto a amigos da UNICAMP, decidimos escolher alguns desses casos e construir uma esfericidade, dá-los sua história de vida e o porquê de suas loucuras.
Resolvi publicar a minha aqui, que é sobre o filho do Algibebe. Os personagens criados nessa narrativa são costurados à obra Helena, também de Machado de Assis. Encontramos Estácio (ainda criança) e o conselheiro Vale; objetos e ações como “três pancadinhas com um leque” fazem referência a uma ação de Helena, por exemplo; e expressões “Oh ! meu amigo” e “Ah, ingrato!”, todas remetem à obra. Para o uso de termos e adjetivos machadianos, também consultamos alguns contos do autor.
Espero que você goste da criatividade e das associações com as palavras de Machado.
Passagens sobre o filho do Algibebe, em O Alienista, de Machado de Assis.
“A mania de grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era essa:
– Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.
Dava cinco pancadas na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:
– Deus engendrou um ovo, o ovo, etc… (p. 14).
ASSIS, M. O Alienista. Série Bom Livro. São Paulo: Editora Ática. 1988.
O filho do Algibebe, por Kiko Arquer
Desde criança, o filho do algibebe acompanhara o pai nas andanças pelas cidade. Sustentado por um mercador ambulante, um bufarinheiro religioso, o menino ficava feliz quando conseguia fazer uma refeição ao dia.
Mas não menos sob pressão, o pequeno Raimundo sempre se alimentava com culpa embaixo do juízo do pai. Este, dava-lhe um pão e três pancadinhas em sua cabeça com a ponta de um leque que carregava no saco de mercadorias.
– Anda, come! Não olhe pra mim, olhe para o pão! dizia ele.
E em seguida resmungava alto:
– Não sei como esse menino vingou. Fracalhão, vil, miserável. Nunca será como São Davi.
E novamente dava três pancadinhas na cabeça do menino enquanto ele comia:
– Fracalhão, fracalhão, fracalhão!
Às vezes, um almoço de melhor qualidade era garantido ao pequeno Raimundo. Acontece que, na chácara do Andaraí, seu pai era colega do conselheiro Vale. O conselheiro era rico, e sua prole se resumia ao filho, Estácio.
As duas crianças brincavam desde pequenas, mas era nítida a diferença entre elas. Estácio, locupletado de um rico café da manhã, almoço, café da tarde, jantar e mimos alimentícios antes de dormir, possuía uma pele untuosa e um sobrepeso esnobe, que o fazia suar e dar ordens ingratas a todos. Os serviçais do pai cumpriam suas ordens. Já Raimundo, sem comida e sem vitamina desde o berço, era tratado como um covarde que coxeava do intelecto.
Era pena que uma criança tão disposta de qualidades morais e resilientes, como o filho do algibebe, não fora nada mais além de um serviçal amigo que acompanhara as pompas e os brinquedos caros do filho do conselheiro Vale.
O garoto crescia dentro de um drama, subjugado e lacrimoso. Por volta de seus 14 ou 15 anos, Raimundo se viu desacompanhado na mansão do conselheiro, não passava ninguém nessa ocasião. O menino foi à cozinha para procurar seu amigo, e esbarrou numa abundante cesta de ovos. Algumas dezenas se espatifaram no chão. Raimundo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Em vexame, susto, fome, remorso, tudo sentiu de mistura, e jogou-se em cima dos ovos quebrados como uma serpente e tratou de comê-los. Lambera o chão na confiança do acidente nunca ter acontecido. Dali a algum tempo, o chão brilhava a saliva, nenhum resquício de que algum ovo sequer existira ali.
Raimundo ficou mais sossegado e nenhuma pessoa apareceu. Sentado no chão da cozinha, imaginariamente flutuou pelos corredores da mansão e deu ares à criatividade. Viu-se visitando os cômodos proibidos aos serviçais, encantou-se com o jardim colorido, fez-se coroado por São Davi, que o pegou pelas mãos e o desfilou pelos corredores aveludados. Deixou-se encantar pelas roupas púrpuras do santo.
– Ora, venha comigo. – disse São Davi.
E envolveu Raimundo em vestes coloridas de rei. Ambos dançavam, desfilavam e faziam caretas com as coroas sobre a cabeça. Com uma espada na mão, via-se magnânimo de um vasto império:
– Corto escudeiros e cavaleiros que ousam olhar para mim! – Bravejava ele aos ares. – Minha lâmina vence baronetes, viscondes, condes…
Neste momento, ouve-se um grito que corta o firmamento:
– Ah, ingrato!
E Raimundo recebe uma forte pancada na cabeça, como um quebrar de ovos.
O filho do algibebe não só imaginara seus desfiles, como pisou em flores, barrentou os tapetes, delirou em vômitos junto às vestimentas do conselheiro Vale.
Com a bochecha colada ao chão, escorriam cascas e ovos do nariz. Ele perdia as cores da saúde.
Com a mirada perdida, ainda viu os dois sapatos de Estácio dizerem:
– Oh ! meu amigo.
O dia não acabou pior, e a noite já recebia Raimundo na cidadela de Itaguaí. Fora jogado na praça principal. A vizinhança apenas soube do incômodo; um acrescentara que vira um algibebe nas sombras da lua, e que ele era seu próprio filho – outro, que fora o próprio demônio que o jogara ali, pois o cheiro de ovo podre tomava os ares.