A censura de Roberto Requião




Solenidade destaca a Escola de Cinema o Governador destaca a Censura

Matéria/Opinião divulgada em 9 de abril de 2008
Por Francisco Arquer Thomé

Várias figurinhas carimbadas do Governo Estadual do Paraná estiveram presentes no Museu do Olho de Curitiba, conhecido formalmente como Museu Oscar Niemayer, na manhã do dia 08 de maio de 2008.

Logo na entrada, duas belas moças entregavam folhetos a respeito do Projeto Juventude Cidadã, que é “focado na busca pelo primeiro emprego e entende a qualificação profissional como uma construção social relacionada ao aprendizado”, pelo menos é isso que diz o simpático e monocromático papel.

Antes de iniciar a cerimônia, a Banda Municipal de Araucária fazia uma apresentação, coordenada por um maestro que destoava seu terno e gravata às tradicionais roupas vermelhas e chapéus de pena dos saxofonistas.

Um detalhe interessante é que, num ambiente cheio de poderosos e “colarinhados”, o prefeito de Araucária não compareceu. O Governador do Paraná, Roberto Requião, fez questão de ressaltar este fato e, com uma mistura de ironia com humor, disse ao público presente: “Vamos respeitar esse evento, e já que o prefeito de Araucária não veio, acho um desrespeito, não comigo, mas com a banda”.

Suas primeiras palavras deram o tom, o resto da solenidade disse por si só. Em seguida a Coordenadora do CINETVPR, Hala Mandi assume o microfone (com certeza seu nome não se escreve assim, e não vale o desgaste de buscá-la na internet). Ela passa uma cronologia histórica da Escola de Cinema e Televisão do Paraná (CINEPRTV) em belos slides produzidos in home.

A coordenadora explica que a primeira ação foi a “Escola”, realizado pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP), depois o “Festival”, realizado pelo Governo, pela COPEL e pela Nandi Produções, e a terceira e última, o Pólo de Cinema realizado pelo Instituto Audiovisual do Paraná.

Slides acompanharam sua explicação sobre a estrutura física do CINEPRTV: “Aqui a sala de edição…Aqui….. (uma fotografia de entulhos e um silêncio gigantesco mostrava que ela não sabia qual local era representado)… Aqui o estúdio… Aqui… (e novamente o silêncio tomava conta do ambiente)… Esse é o ônibus que leva os alunos…(para fechar com chave de ouro)”.

Uma coisa não foi esquecida, aliás, foi repetida três vezes: Que a inscrição do vestibular custa 90 reais.

Passados poucos minutos, um curta-metragem foi apresentado. Renomados artistas, todos eles filmados na frente do Museu do Olho, disseram sobre a importância de se incentivar a Escola de Cinema e a valorizar as produções dos “americanos do sul”. Nomes como Gil Baroni, Cláudia da Natividade, Juan Carlos Valdívia, Fernando Severo, entre outros, deram seus belos depoimentos. Apenas um pequeno empecilho os desqualificou.

Resumidamente, o chamado “curta-metragem” estava mais para uma “matéria jornalística”; nem em “documentário” poderia se enquadrar e, mesmo sendo qualquer uma das definições, a produção foi uma literal “porcaria artística”.

Não vale a pena citar o porquê, detalham-se apenas os erros de enquadramento, as irregularidades de foco nada propositais, e falhas básicas aceitáveis somente para festas de aniversário de 11 anos filmadas por amiguinhos.

Pois bem, os aplausos existiram, logicamente, e a Hala Mandi chamou os responsáveis pela produção do “curta-metragem” e os definiu como “nossas primeiras crias”, já que eles cursavam o 2º ano da Escola de Cinema.

Os rapazes foram até o palco e, esticando um amarelo silêncio por uns trinta segundos, foram interceptados pelo governador.

Roberto Requião agradeceu aos rapazes e soltou: “Estamos vivendo um processo de censura!!!”. Ele afirmou que as raízes do fascismo estão implantadas no Brasil, já que o jornalista Paulo Henrique Amorim estaria presente, mas a empresa pela qual trabalha, a Internet Generation (IG), mais conhecida como Internet Grátis, o proibiu de comparecer na solenidade.

O Governador então, começou a se defender: “O espaço da televisão é aberto para a expressão às pessoas com dificuldade de falar ao Brasil!”, referindo-se à Rede Pública de Televisão, porém, conhecido publicamente como TV Requião.

Na continuação do evento, o secretário Rafael Greca foi chamado e explanou sobre a doação de 206 milhões e uns quebradinhos à Companhia de Habitação do Paraná. O Governador assinou um imenso cheque, as câmeras da Rede Pública de Televisão amontoaram sobre este ato simbólico, agradecimentos vão…agradecimentos vem… Roberto Requião disse que ganhou uma cesta básica com produtos orgânicos sem agrotóxicos na Feira da Sociedade Rural de Londrina, e… “Eu aguardo o pronunciamento do Supremo Tribunal Federal!!!” Para quem não sabe, o governador foi denunciado ao STF por usar a Televisão Pública em benefício próprio.

“Tenho assuntos pendentes que são movidos por uma fé cínica”, afirmou o governador, salientando novamente a censura e o regime fascista em que vivemos.

Dando continuidade à solenidade, importantes nomes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da divisão médica do Estado e o governador foram chamados ao palco para simbolizar a entrega de 35 milhões de reais ao hospital de reabilitação para portadores de deficiência.

Em menos de três minutos, Roberto Requião pega o microfone e diz: “O Canadá tem o melhor hospital de reabilitação do Planeta e o Paraná tem o melhor sistema hospitalar do Brasil”. Ele afirmou que a imprensa não quer divulgar isso, e culpou, adivinha quem? Sim, a censura e o fascismo instaurado.

Eqüidistante a este momento, o Secretário da Saúde informa que o hospital já está funcionando e faz seus agradecimentos formais, quando uma grande queda de energia elétrica deixa o auditório silenciosamente escuro.

Ouve-se apenas uma voz, gritada no inútil microfone: “É a censura!!!”