nov 06 2015

Professor, não entendi sua aula. Posso pesquisá-la na internet?

professor_tecnologia

Pensei em elaborar um texto que poderia ser útil para que os professores pensassem a educação, mas existem tantos livros e apostilas, tantas pessoas com opiniões prontas, tantos “tantos” que tive até o famoso “bloqueio de escritor”.

Diante do desespero e após beber litros de café, criei três perguntas que julgo importantes:

1) É importante ter dinâmicas nas aulas?

2) Qual o papel do professor na era da comunicação acessível e rápida?

3) Interação e conhecimento. Os jornais em sala de aula proporcionam esta conexão?




 Assumo que estas perguntas são boas, mas eu não me contentaria em dar respostas comuns e ver este texto desaparecer. Além do mais, quem sou eu diante de grandes mentes como Vygotsky e Paulo Freire? Não posso me comparar a eles, Vygotsky e Paulo Freire tinham muito menos cabelo.

A primeira vez que fui dar aula vesti um guarda-pó e entrei na sala.
Como professor de português, meu objetivo era muito simples, eu tinha que ensinar a mais de 40 adolescentes o que eram “conjunções adversativas”. É um belo palavrão, não é mesmo? Quer saber o que significa? Pesquise no Google. Com a internet você terá uma linda explicação em segundos.

Bem, já que você ainda está insistindo neste texto, continuarei a história.

Fiquei na frente de todos aqueles jovens e comecei a falar. Iniciei minha aula. Expliquei todo o conteúdo, li textos, dei exemplos e escrevi no quadro-negro.

Os alunos estavam prestando atenção, terminei e fiquei muito feliz.

Havia apenas um detalhe, tinha-se passado apenas 10 minutos. Diante daqueles olhares sedentos por conhecimento, resolvi fazer a chamada.  Ganhei 2 minutos, mas a minha aula era de 2 horas.

professor_curitibaEu olhava para os alunos, os alunos olhavam para mim, os alunos olhavam entre si. Um silêncio reinava na mesma proporção que minha vergonha aumentava. Eu tinha planejado uma aula de 2 horas e em apenas 12 minutos eu tinha passado tudo. Foi neste instante que um aluno levantou a mão e falou uma frase mágica, frase a qual veio acompanhada por  J.S. Bach cantada por moças nas tessituras de soprano, mezzosoprano e contralto em plena harmonia. Ele disse: – Professor, eu não entendi nada.  Neste instante, misturando a criatividade ao conhecimento, pedi para que todos os alunos se levantassem e começamos a fazer dinâmicas.

Os alunos interagiram entre eles e o principal, eles interagiram com o conteúdo.  Passou o tempo e, no final da aula, alguns adolescentes se aproximaram de mim e assumiram que “viajaram na maionese” nos primeiros 10 minutos de aula.  Um dos jovens me disse: – A gente tava com vergonha de dizer que não tinha entendido, fessôr. Mas, depois que o senhor mandou todo mundo ficar de pé, nunca mais vou esquecer o que são conjunções adversativas.




Sim, leitor, ele aprendeu o que são conjunções adversativas antes que você. Não adianta correr para o Google agora.

As dinâmicas em sala de aula proporcionaram uma interação com o conhecimento.

 

O papel do educador não é o de ‘encher’ o educando de ‘conhecimento’, de ordem técnica ou não, mas sim o de proporcionar, através da relação dialógica educador-educando, educando-educador, a organização de um pensamento correto em ambos.  (FREIRE, 1971, p.53)

 

Então, professor. O senhor começou a fazer dinâmicas na sala de aula e foi feliz para sempre?

Cale-se. Feliz para sempre é a Cinderela. Cada aula que eu comecei a preparar tinha que ter uma atividade especial. Ensinar não era mais o momento em que eu poderia mostrar que sou inteligente, inflando e expondo meu ego e meu saber aos alunos. Ensinar passou a ser a troca de conhecimentos. Toda aula preparada exigia a interação com o tema proposto, então sua elaboração era parte estratégica do conhecimento.

professor_mauComecei a suar para elaborar dinâmicas. Assumo que tentei dar uma escapadinha para a internet, mas de nada adiantou. As dinâmicas online que encontrei eram sobre Motivação e Relacionamentos. Se eu motivasse ainda mais os alunos, eles criariam asas e voariam sobre a minha cabeça. Então passei madrugadas atualizando todos os conteúdos de aula e criando dinâmicas. Como as fiz? Respondendo a uma pergunta básica: Se eu tenho internet e acesso a quase todas as informações que existem, por que eu deveria aprender este conteúdo que o professor está passando?

O tradicional professor que despeja informações sem se preocupar com o aluno não está mais apto ao ensino do século XXI.

 

tanto as crianças como os professores vivem num espaço social mediatizado por mensagens televisivas, radiofônicas, jornalísticas, etc., capazes de provocar alterações nos comportamentos, criarem referências para o debate público, influenciarem na tomada de decisões, além de revelarem, muitas vezes, os próprios limites do discurso pedagógico. (CITELLI, 2000, p.140)

 

Por milhares de anos o conhecimento não era acessível, tornando-o raro e valorizado. Nos dias atuais, todas as pessoas têm acesso à informação que quiserem em alguns cliques do mouse.

Comecei, então, a levar para a sala de aula uma proposta refinada, dentro da grade curricular e que era passível de interação. Um grande exemplo desta interação com o conhecimento foi a utilização de jornais em sala de aula.




Você já experimentou levar dezenas de jornais para dar aula? No momento em que você entra na sala, vemos um monte de olhinhos brilhando e esperando. Explique a proposta e distribua aquele monte de papel com imagens e letras. Os alunos tocam, cheiram, cortam; eles se apoderam daqueles pedaços de papel, daqueles pedaços de conhecimento. Utilizando algumas palavras de Caetano Veloso (1998), eles começam a “amá-los do amor táctil”.

jornal_sala_de_aulaSim, isso é interagir com o conhecimento. Eles têm que debater e cabe ao professor ser o mediador. Vou para a sala de aula com um tema, coloco fogo nele, fico controlando e alimentando a chama com novas ideias. Assim, para o aluno, o conhecimento começará a ser prazeroso.

Quando damos “poder” aos alunos, deixando-os com várias folhas de jornal nas mãos, com textos longos e com objetivos na mente, retomamos a possibilidade de ser gostar das palavras e retomar o prazer da leitura.

Espera um pouco. Como assim “prazer da leitura” e o que é este troço de “textos longos”?

Quando eu era um menino serelepe, meu castigo era ficar sem recreio. Hoje em dia, noto que garotos pimentinhas e moças sapecas recebem como castigo escrever uma redação. Uma temerosa, comprida e demoníaca redação.

– Você xingou seu coleguinha, Maria, então escreverá uma redação de 30 linhas!!! Grita aquela professora cheia de olheiras balbuciando desprezo e inveja.

Mariazinha terá um asco para com a leitura escrita. Em sua cabeça, textos longos só servirão para criar desgosto e obrigatoriedade para adquirir algum conhecimento técnico. Tchau prazer da leitura, vemo-nos em outra vida.

É simples explicar por que a formação da leitura incutiu categorias como a tortura e negação do prazer. Como o avesso do tolo é o crítico, criou-se o teorema imperfeito de quem lê sabe das coisas (…). Com base nesse raciocínio torto, ler tem que servir para alguma coisa, o que exclui da conversa umas tantas obras da literatura universal, cujo maior mérito é justamente não servir para nada (…). Mesmo assim, a relação íntima entre leitura e ócio, leitura e desejo e leitura e prazer permanece como um problema clássico, cuja raiz longínqua parece ser o próprio pecado original”. (FERNANDES, 2010, p.34-35)

 

O acesso e o uso constante da internet trouxe a rotina dos textos curtos, leitura de monitor, informações rápidas e está deixando rarefeito o poder de concentração de muitas pessoas. Não sou tão reacionário como o escritor Sérgio Rodrigues (2013), pois ele diz que “a atenção concentrada é o capital que cada vez mais dividirá os seres humanos entre senhores e escravos digitais”, mas vemos que os professores precisam se reinventar para oferecer o direcionamento do conhecimento e para fazer os alunos não ficarem satisfeitos com o simples dinamismo das informações curtas e rápidas. Usar jornais em sala e fazer os alunos interagirem com o saber são excelentes formas de recriar a aula.




Leitor, cansei de escrever. Vou ler alguns e-mails e ver se alguém curtiu minha foto nova no Facebook. Tchau.

Você ainda está aí?! Vá embora, pois eu já cansei. Passaram-se várias páginas e o assunto é o mesmo, onde já se viu? A cada parágrafo que escrevo tenho vontade de diversificar, escrever sobre a rotação da Lua, imaginar um poema, divulgar um pensamento de Albert Einstein que me faça parecer inteligente, flertar com alguém no chat, ver vídeos no YouTube, mas vídeos bem curtos, de apenas uns 3 minutos no máximo, com bastante imagem e pouco texto. Então, afirmo, não sei de onde estou tirando forças para continuar escrevendo este texto, mas vamos lá. Pior que eu é você, leitor, que tem tantas coisas para fazer e continua lendo isso aqui.

Uma boa aula é aquela em que o conhecimento interage com o aluno, com o que ele sabe, então as dinâmicas precisam estar no planejamento do professor.
Qualquer dinâmica serve? Claro que não. Ela exige improvisação constante. Muitos professores tentam ensinar sem olhar para quem irá aprender, e isso é uma retrógrada Pedagogia Tecnicista.

trata-se, agora, de levar a campo a estratégia do entendimento, aquela baseada no presumido jogo dialógico que permitiria às partes exporem seus pontos de vista e a partir daí construir os consensos”. (CITELLI, 2000, p.98)

 

O professor interage, dança de acordo com o conhecimento e, uma vez que o ato de ler comece a ficar gostoso, trabalhar com jornais em sala de aula se tornará uma rotina de sentir prazer com o aprendizado. Qual a dificuldade que os professores têm em improvisar dinâmicas e trabalhar com jornais? Esta é uma pergunta brava e vem muitas coisas à minha mente, já que existe uma pluralidade infinita de situações. Elas envolvem, desde a individualidade e a conscientização de cada educador, até a condição geográfica e a cultura escolar. Se eu for generalizar e tentar achar um denominador comum, digo que o professor limita o conteúdo curricular ao mínimo necessário para o aluno. Pelo prazer do conforto individual ou por descontrole estrutural do meio de atuação, não importa, a questão é que a utilização de jornais em aula exige a quebra de paradigmas. O jornal apresenta conteúdos variados que independem do “mínimo necessário”; ele abrange uma pluralidade de informações que afronta o professor despreparado; o jornal ainda é pré-conceituado pela tradicional cultura escolar do “aula divertida não é aula importante”, já que ele não segue a fórmula exata da grade curricular.

fogo_professorAlém disso, se por um lado existem as dinâmicas, que trazem vivacidade às aulas, por outro, existem sistemas escolares que não estão prontas para elas. São escolas que tem um viés disciplinador, onde o aluno é apenas um receptor homogêneo do conhecimento. Então a culpa é só do sistema escolar tecnicista? Claro que não. Hoje em dia há escolas onde os alunos têm mais voz ativa e também há muitos professores alegres que não sabem proporcionar uma boa interação com o conhecimento. Sinceramente, não sei quem é o pior. O mal opressor ou o alegre bobão.

De uma forma tão resumida que parece uma sinopse mal escrita, o professor precisa saber qual o conhecimento que já existe no aluno, pois somente assim ele saberá interagir e levar o gosto pelo saber. As aulas devem estar adequadas a uma Pedagogia Histórico-Crítica.

se trata de um movimento dialético, isto é, a ação escolar permite que se acrescentem novas determinações que enriquecem as anteriores e estas, portanto, de forma alguma são excluídas. Assim, o acesso à cultura erudita possibilita a apropriação de novas formas por meio das quais se podem expressar os próprios conteúdos do saber popular.

(SAVIANI, 2007, p. 21)

 

Então temos três elementos que precisam se interligar.

1) Os alunos têm acesso a quase todas as informações do mundo.

2) O professor tem que oferecer interação com o conhecimento proposto.

3) Jornais em sala de aula é uma dinâmica fascinante pois pode estimular o prazer da leitura, essencial busca nos dias de hoje.

Logicamente, ainda estamos restritos à mecanização de conteúdos, criando humanos “afunilados” com o único objetivo de passarem no vestibular, mas é questão de tempo que os jornais em sala de aula sejam trabalhados e respeitados como uma importante fonte de conhecimento e de autoconhecimento.




 

É claro que essa cisão entre subjetividade e objetividade nada mais é que o reflexo da divisão social do trabalho, da separação entre o fazer e o pensar, da prática e da teoria. E, nesses casos, assiste-se a uma supervalorização da teoria, porque, sendo aquela que sabe, tem o direito de comandar a prática. A esta, como ignorante, nada mais resta do que obedecer à teoria. E dada a falsidade da relação de dominação entre teoria x prática, não poderíamos esperar que a escola, instituição legitimadora e produtora desse tipo de dominação, pudesse ter encarado a transmissão do conhecimento de uma forma diversa daquelas que impedem a autonomia intelectual e a produção de um conhecimento verdadeiro e, por isso, libertador. (GIUSTA, 1985, p. 28)


 

 

Por: Francisco Arquer Thomé é professor, palestrante, jornalista e especialista em Estratégias da Comunicação.

REFERÊNCIAS 

CITELLI, Adilson. Comunicação e Educação: a linguagem em movimento. São Paulo: Senac São Paulo, 2000.

FERNANDES, Jose Carlos. A crítica dos sentidos.  In: Leitura: o mundo além das palavras. Instituto RPC, Curitiba, p. 34-35, 2010.

FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 6.ed. Trad. Rosisca Darcy de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.

GIUSTA, A. da S. Concepções de Aprendizagem e Práticas Pedagógicas. In: Educ.Rev. Belo Horizonte, v.1: 24-31, 1985.

RODRIGUES, Sérgio. Concentração dividirá o mundo entre senhores e escravos. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/pelo-mundo/concentracao-dividira-o-mundo-entre-senhores-e-escravos. Acesso em: 05 jul. 2013, 17:30:30.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 39.ed. Campinas: Autores Associados,2007.

VELOSO, Caetano. Livros. Intérprete: Caetano Veloso. Livro, c1998. 1 CD.

Deixe seu comentário