nov 22 2017

Por que Zumbi dos Palmares ainda incomoda tanto os conservadores?


Está na moda questionar o principal líder negro. Quem seria Zumbi? Um herói? Um senhor de escravos? Um facínora? Como sempre acontece no Facebook, as opiniões são apaixonadas, cheias de certezas e equívocos. As convicções levam ao erro, a dúvida, ao conhecimento.

fonte: @MPHistoria

A história precisar ser analisada com cautela. O que temos do passado são fragmentos, são relatos e nenhuma narrativa é desinteressada. Imagine se daqui a quinhentos anos alguém resolver escrever sobre o Lula. Se este sujeito quiser, ele poderá construir qualquer imagem do ex-presidente. Se nosso historiador do futuro usar, por exemplo, a Veja como fonte histórica, ele terá um resultado. Caso a escolha seja o site Brasil 247, a conclusão será oposta. Ambas são fontes históricas e servem para a pesquisa. Por isso que um historiador passa a vida inteira aprendendo a interpretar esse tipo de material. As fontes não são o espelho da realidade, mas, dependendo da abordagem, elas nos permitem acessar um determinado contexto. Elas precisam, porém, ser vistas com cautela e cuidado, justamente o que falta para esses ideólogos de Facebook.

A pergunta correta não é quem foi Zumbi, mas o que a sua imagem representa para um povo que foi escravizado por mais de três séculos. Só nesse contexto é possível entender o motivo dele ser venerado pelo movimento negro. Zumbi é um mito, uma representação, não um homem. É uma imagem de luta, fundamental para uma população marginalizada e, por tal motivo, tem na resistência uma forma de sobreviver.



O Zumbi histórico, o homem atrás do mito, é algo que infelizmente os historiadores conhecem muito pouco. Até a famosa imagem que circula é uma construção feita posteriormente. Trata-se de uma invenção. Você nunca irá encontrar uma biografia de Zumbi numa livraria. O motivo é simples, Palmares foi habitado por escravos fugidos, certamente analfabetos. Não há registros da vida no quilombo. Sabemos muito pouco sobre o cotidiano deles. Esses escravos eram de diferentes etnias, por isso até fazer um paralelo com a África é perigoso. Não sabemos sequer se existiu um único Zumbi.

As principais fontes históricas que foram preservadas são os relatos das autoridades da época, que, obviamente, não eram desinteressadas. Palmares não era apenas uma comunidade, mas uma rede de “mocambos”, isolados uns dos outros. É difícil até dizer se esses locais seguiam as mesmas tradições.

Havia escravos no quilombo? Também não é possível afirmar, mas é possível que sim. Porém, mesmo que houvesse, muitas perguntas ficariam sem resposta. O que significava ser escravo naquele contexto? Quais eram os critérios para uma pessoa perder a liberdade? A escravidão era reservada para os traidores? Para os prisioneiros? Certamente não tinha, como na colônia, o elemento racial. Se os chefes locais eram tão cruéis, por que tantos escravos fugiam para a Serra da Barriga? São perguntas que esses ideólogos não conseguiram responder. Palmares começou com apenas 40 escravos fugidos de uma fazenda e chegou a contar, no auge, 20.000 habitantes. Como explicar?





O principal chefe do quilombo não foi Zumbi, mas Ganga Zumba. Zumbi é lembrado não por ser o fundador da comunidade, tampouco a principal liderança. Ele se tornou símbolo máximo do movimento negro pq decidiu, no momento mais crítico, resistir até a morte. Ganga Zumba assinou uma rendição em que se comprometia a devolver todos os escravos fugidos a seus senhores, em troca da liberdade dos negros nascidos em Palmares. Zumbi certamente teria a sua liberdade, ele era nativo do quilombo. Porém, preferiu continuar lutando. Ele foi o último líder do quilombo, no período mais difícil, no momento em que Palmares estava sendo destruído. Se houve escravos lá, certamente foi antes.

Esse é o ponto. Não sabemos muito a respeito do homem, mas conhecemos o mito, a força da imagem da resistência. De alguém que prefere morrer a ser escravizado. Por isso, ele é lembrado. Por isso, ele incomoda.

Todo mito é uma construção, o ser humano sempre estará aquém dessas representações, mas elas são fundamentais porque encarnam valores e ideias. E são tais ideais que movem os homens. Por isso também Zumbi ainda é perseguido. Não por amor a “verdade histórica”, mas pelo medo daquilo que ele representa. Pelo temor do oprimido levar ao extremo a seu desejo de liberdade.

O sonho de um Brasil mais igualitário, isto que está sendo combatido. Não Zumbi. O homem já morreu, Palmares já foi destruído. Porém, algumas pessoas vivem após a morte física, como imagem, como sonho, como ideal. Essa é o Zumbi que conhecemos no século XXI e é ele que celebramos todos os anos. Zumbi é parte do desejo humano pela justiça. É a busca por um mundo menos cruel. Mundo esse que talvez seja uma utopia, que talvez seja uma realidade inalcançável, mas que nunca deixará de ser sonhado. Graças a pessoas como Zumbi.


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