Entender o OUTRO. Perspectivas na Escola, na Educação e na Prática pedagógica


Enxergar o outro é uma tarefa de autoconhecimento. Mas quem é o “outro”? Como entendemos o “outro”?

Separamos três formas de ver o OUTRO de acordo com Carlos Skilar e Silvia Duschatzky, como as perspectivas se traduzem na escola, na educação e na prática pedagógica.

Texto retirado do material  Indagações sobre o Currículo. Currículo, Conhecimento e Cultura – MEC+Clique aqui para fazer download e ter acesso ao material completo.


 

1º. O Outro como Fonte de todo mal

A primeira perspectiva, segundo os autores, marcou predominantemente as relações sociais durante o século XX e pode se revestir de diferentes formas, desde a eliminação física do outro, até a coação interna, mediante a regulação de costumes e moralidades. Nesse modo de nos situarmos diante do outro, assumimos uma visão binária e dicotômica. Em um lado separamos os bons, os verdadeiros, os autênticos, os civilizados, cultos, defensores da liberdade e da paz. Em outro, deixamos os outros: os maus, os falsos, os bárbaros, os ignorantes e os terroristas. Se nos identificamos com os primeiros, o que temos a fazer é eliminar, neutralizar, dominar ou subjugar os outros.

Caso nos sintamos representados como integrantes do polo oposto, ou internalizamos a nossa maldade e nos deixamos salvar, passando para o lado dos bons, ou nos confrontamos violentamente com eles.

Como essa primeira perspectiva se traduz na escola?

Mostra-se presente quando:

(a) atribuímos o fracasso escolar dos(as) alunos(as) às suas características sociais ou étnicas;

(b) diferenciamos os tipos de escolas segundo a origem social dos(as) estudantes, considerando que alguns têm maior potencial que outros e, para desenvolvermos uma educação de qualidade, não podemos misturar estudantes de diferentes potenciais;

(c) nos situamos,como professores(as), diante dos(as) alunos(as), com base em estereótipos e expectativas diferenciadas segundo a origem social e as características culturais dos grupos de referência;

(d) valorizamos exclusivamente o racional e desvalorizamos os aspectos afetivos presentes nos processos educacionais;

(e) privilegiamos somente a comunicação verbal, desconsiderando outras formas de comunicação humana, como a corporal, a artística etc.





2º. O outro como sujeito pleno de uma marca cultural

Ao considerarmos o outro como sujeito pleno de uma marca cultural, estamos concebendo-o como membro de uma dada cultura, vista como uma comunidade homogênea de crenças e estilos de vida. O outro, ainda que não seja a fonte de todo mal, é diferente de nós, tem uma essência claramente definida, distinta da que nos caracteriza.

Essa  perspectiva educação

Na área da educação, essa visão se expressa, por exemplo, quando nos limitamos a abordar o outro de forma genérica e “folclórica”, apenas em dias especiais, usualmente incluídos na lista dos festejos escolares, tais como o Dia do Índio ou Dia da Consciência Negra.


3º. Outro como alguém a tolerar

Já a expressão o outro como alguém a tolerar convida tanto a admitir a existência de diferenças quanto a aceitá-las. Nessa admissão, contudo, reside um paradoxo. Se aceitamos, por princípio, todo e qualquer diferente, deveríamos aceitar os grupos cujas marcas são comportamentos anti-sociais ou opressivos, como os racistas.

Essa  perspectiva na prática pedagógica

Que consequências a adoção dessa perspectiva pode ter para a prática pedagógica?

Julgamos que a simples tolerância pode nos situar em uma posição débil, evitando que tomemos posição em relação aos valores que dominam a cultura contemporânea. Pode impedir que polemizemos, levando-nos a assumir a conciliação como valor último. Pode incentivar-nos a não questionar a “ordem”, vendo-a como comportamentos a serem inevitavelmente cultivados.


Poderíamos acrescentar outras formas de nos situar diante dos outros. No entanto, acreditamos que a tipologia proposta por Skliar e Duschatzky  expressa as posições mais presentes na nossa sociedade hoje, evidenciando a complexidade das questões relacionadas à alteridade e à diferença.





Referências

Texto retirado de: Indagações sobre o currículo. Currículo, Conhecimento e Cultura – MEC + Clique para fazer download

SKLIAR, C. e DUSCHATZKY, S. O nome dos outros: narrando a alteridade na cultura e na educação. In: LARROSA, J. e SKLIAR, C. (Orgs.). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.


 

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